terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Anjos

Chegará o dia em que a tua carne
Queimada ao fogo, ou sob terra e lama
Reclamará o corpo que hoje se inflama
Sonhando tarde um dia ser tua tenda

Hoje ele é fonte onde tu és fenda
Amanhã, fétida cor de langanha
Se hoje ele tem borboletas na entranha
Em breve só vermes serão sua prenda

Não negas assim um  corpo que ostenta
Tanto desejo por essa tua pele
Enquanto sois ainda dois marmanjos

Aproveita o fogo que a morte lenta
Apaga, fazendo, de ti e dele,
Mais um soneto de Augusto dos Anjos

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Da Alma do Vô Tõim

_Vòzinha, não é pela pessoa
É a situação!
Bem eu entendo sua saudade
E sua vontade de ver o velho
Na cabeceira de costume,
Na cerveja que se tome,
No cigarro que se fume!
Percebo que não há outra cara
Na ladeira de piçarra,
Que tem uma lágrima por grão.
O velho Antônio sei foi,
(Me perdoe, foi ou não?!)
E eu sei que cada estaca 
Tem sua marca de facão
E o seu facão,
A marca de cada dedo da sua mão,
Como seu peito tem, vòzinha,
Os sulcos dos dedos de vô Tõim,
E seu aço rasgueia
Cada pedaço do seu coração.

Não me leve a mal, vòzinha,
Até me leve a bem:
Se a vida se for como se deixou dito,
Já lhe digo que muitíssimo lhe amo também,
Mas fique, após a morte,
Onde lhe convém!
Sei bem que nos abaterá a saudade
Mas não penso ser bondade 
Que a senhora me resolva aparecer,
Penso que corpo gosta de corpo,
Não de almas à mercê...
Inclusive, caso se vá quando nunca esperado,
Lembre de dar o recado a meu vô,
A quem nunca ficou esclarecido
Não ser bom se dar 
Por reaparecido.

Não fique assim, minha vó Maria,
Não se zangue, que o vô no céu
Com certeza reflete a contradição:
Ter uma mulher cristã casta
E um neto ateu cagão.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Fole

Procurei o doutor Raimundo
Que eu andava baquiado
Pois me disse o tal doutor
Para eu tomar um tal folato
Que o meu sangue andava fraco
Não sei se ralo ou ralado

Fui direto pra cabana do Mundim
O Raimundo sanfoneiro
E disse todo aguniado:
"Puxe logo esse fole
Largue a mão de ser mole
Toque um choro arrochado
Que eu preciso de folado"

Quando voltei, o doutor
Me perguntou meio de lado
"E o folato?"
"Doutor,
Voltei com o coração alforriado
E o pé bem esfolado,
Mas lhe garanto, me curei,
Lhe garanto! Tô curado!
Que eu até já voltei à minha labuta
De passar o dia deitado!" 
O branco no escuro é preto
O preto no claro é preto
Então me diga
Quem é que vive de aparência
Ou é uma questão de metamorfose
Ou é uma questão da metaciência

Igualzim

Um pèzim de pimenta sem sol
Na sombra do apartamento
É igualzim eu e tu
Cada um em sua casa

Vem morena mais eu prum banho de sol?
Vem morena, mais eu?
Tua pimentinha vermelha
Olhando pro céu?

Um peixim de água doce do Mearim
Um surubim
Numa bacia de água com sal
Na cozinha do apartamento
É feito eu e tu
Paradim em casa

Vem morena, mais eu
Teu Zèbedeu?

Porque palha de arroz 
Escondendo brasa 
Queima o pé pela raiz
Que eu sem ti
Tu longe d'eu
É feito olhar pro Sol
E ver um arranha-céu 
A uma légua daqui
Que é igual ao pescador
Sem vara e sem água
Sem pé de mudubim
Feito uma boca banguela
Que não prova que tem dente
Porque nunca sorri
Que é igualzim o pé de acerola
Dando uva passa
Achando que é feliz
Do jeito dum meio dia
Passando da hora
Atrasado 
É ser um imigrante 
A vida toda
Em seu próprio País

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Eu não preciso de ninguém
Eu vou só
Que na estrada, pé ante pé,
Fica pó
No rastro
Fica ré
Estrada sem sol

Eu não preciso de nada
E nem de ninguém 
Nesse barco dadá
Escravo que sou
Escravo de Jó
Já não jogo meu coração
Nas presas de iá-iá

Eu nem preciso 
De precisão
Manda o olho, a mão,
Nos cortes do pão
Pão de se comer, 
Quiçá,
De se partir
Pão de se cheirar

Pão amargo que já foi pão
Mas já não o é.
Jó libertado
Do seu escravo de Jó.
Barco afundado
Por seu próprio canhão.
Eu no caminho
Pé ante pé
Sem rumo

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Fisiológico, Difícil e Lógico

Meu esquerdo coração
Já não sustenta essa pressão 
De catorze, sistólica,
E de dez duma diástole eufórica,
Que teima em não ceder.
Talvez ela pense que não,
Mas meu pulmão 
Já não incursiona
A vinte ventiladas por minuto
Sob a aréola masculina.
Sê minha, menina!

O giro do meu cíngulo
E minh'alma hipocampal
Estão encharcados de serotonia
(A dopamina já não a regula down)
De tanto minha retina, minha fóvea,
Focar sua óbvia melanina.
Sê minha, menina!

Eu pegaria meus estribos
E cavalgaria por um ou dois arcos farígeos
Aonde quer que ela fosse.
Empunharia meu martelo
(Mas nunca uma foice)
E faria ossículos de metal
Sob a escama temporal
Em minha assídua bigorna
Para um dia eu acordar
E ouvir essa voz que me nina.
Sê minha, menina!

Chamo meu fígado de liver
If she wants to live with me.
Chamo o meu coraçãozinho 
Mon petit coeur
Se ela disser que bem me quer,
Ou que ela quer a minha sina.
Sê minha, menina!

Eu me daria um tiro na garganta
Pra ver o quanto ele arranca
Da minha tireóide de fato.
Assim meu tempo passaria
Mais devagar ao seu lado. 
Eu, preso a ela,
Ingeriria tiroxina livre,
Livre de mazela,
Para vê-la melhor
Com minha exoftalmia.
Será que ela me amaria
Com a garganta em caseína?
Sê minha, menina!

Eu, estreptococo,
Tu, penicilina,
Eu, prolactinoma,
Tu, cabergolina,
Eu, nefropata,
Tu, lítio e cocaína
Me mata, mas sê minha,
Minha menina!